ARTIGO: O frio nas relações interpessoais dentro das empresas

Análise de Ivan Ferreira de Campos

Neste período em que passamos pelo inverno que nem está tão rigoroso, surge o melhor do ser humano, as roupas de inverno! Digo isso pelo fato de que outras coisas boas presentes na sociedade estão em falta, como o calor humano, a amizade, a cumplicidade e companheirismo.

Nas empresas, isso é ainda mais percebido uma vez que em razão das características de competividade, percebe-se cada vez menos os momentos de confraternização dentro dos espaços de trabalho. E nem estou falando de festas, churrascos, jantares, ou do tão famoso happy hour, mas sim do compartilhamento do afeto, mesmo que dentro de uma esfera de respeito e coleguismo esperado dentro de grupos que todos os dias se encontram pelos mesmos objetivos.

Sob a premissa de uma discussão que envolveria clima e cultura organizacionais, podemos observar que hoje temos cada vez menos amigos oriundos do trabalho e isso fica mais evidente a cada passo ou grau de sucesso obtido pelos colaboradores de uma empresa. Basta compararmos as características das relações interpessoais entre pessoas de um nível hierárquico mais baixo dentro de uma empresa, em relação a seus colegas de níveis médios ou altos nas hierarquias.

Enquanto a turma da base ainda apresenta pequenos traços de amizade ou coleguismo, representados pela antiga camaradagem ou pelas brincadeiras, troca de situações do dia a dia e até mesmo dos problemas, nos níveis mais altos (e nem tão altos assim), a correria do dia a dia, as metas, as entregas sucessivas, as preocupações pessoais, e a latente necessidade de mostrar serviço, sufocaram os laços afetivos.

Se por um lado para as empresas parece neste momento um bom negócio ter profissionais cada vez mais comprometidos com os resultados, independente disso custar aspectos de socialização e amizade, por outro lado a longo prazo já se percebe que isso implicará em um custo social que afetará a capacidade de entrega de resultados destes mesmos colaboradores dado que:

1 – Times sem laços sociais tendem a não compartilhar conhecimentos, enfraquecendo o desenvolvimento da equipe;

2 – Profissionais sem empatia tendem a não serem respeitados, exceto pela imposição, algo que notoriamente é sabido que não se sustenta a longo prazo;

3 – Pessoas que não compartilham sucessos, fracassos e aspectos do cotidiano não assimilam mudanças de rumo ou oscilações de resultados no dia a dia, sendo enfraquecidos por falta de bases de sustentação mútua;

4 – O ambiente impessoal tende a fortalecer a individualidade, a competitividade e faz surgir lideranças formais e informais que não sabem liderar sob as premissas esperadas de um líder, ressurgindo o antigo chefe centralizador com nova roupagem.

Outro grande ponto a ser destacado é que mesmo na base onde ainda temos resquícios de relações mais humanas nas empresas, é possível perceber que a cada dia esfriam-se as coisas, pois os comportamentos e o ambiente “contaminado” dos níveis mais altos, afeta os níveis mais baixos das empresas, e as pessoas passam a trabalhar menos encorajadas à construção de elos afetivos.

Há um certo tempo ouvi de um colega que em uma empresa em que trabalhou, este vivenciou um ambiente que não era familiar, não era superprofissionalizado, nem pouco profissional, não era mecanizado, nem totalmente flexível, tampouco era propício a que as coisas não funcionassem do tipo em que há os líderes “laissez faire” que deixam a coisa funcionar como as ondas do mar, ou um ambiente em que os líderes são extremamente rígidos, havia sim um meio termo e a empresa funcionava.

Lá, segundo meu colega, era compartilhado o dia a dia, os problemas pessoais, os problemas da empresa, as demandas e os objetivos da empresa, as metas, e também as dificuldades de cada um em contribuir para que as metas fossem atingidas, e mesmo assim sempre havia o cumprimento destas em tudo que era esperado, isso sem que fossem perdidas as risadas, o companheirismo, as piadas e o bom e velho pastel de sexta na feirinha da Rua Santos.

Com essa menção à passagem vivenciada pelo meu colega, o que quero dizer é que mesmo com entregas, mesmo com dificuldades diárias, mesmo com alto nível de profissionalização dos colaboradores de uma empresa, o frio tem de estar vinculado ao inverno e não às relações interpessoais, pois já é percebido que em um mundo cada vez mais conectado e ao mesmo tempo mais distante, se não tivermos relações interpessoais e um clima organizacional mais humano, teremos cada vez mais pessoas infelizes nas empresas, e todos sabemos que pessoas infelizes não costumam trabalhar da melhor maneira que poderiam.

E você, trabalha em uma empresa em que o ambiente é propício às relações interpessoais? Você ainda considera que está em um ambiente em que se sente bem? Trabalha feliz e percebe que seus colegas são felizes?

Até a próxima!

Ivan Ferreira de Campos (@ivanf1983) é adminis trador, consultor e professor universitário. Acompanhe também as publicações pelo Twitter e pelo YouTube, no canal MindSolution - Visao e Gestao